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Lembrando Miguel Torga (no centenário do seu nascimento)
14-11-2007
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De Torga, já tudo foi dito. Pelos muitos ensaístas que se debruçaram sobre esta admirável simbiose entre o Homem e o Escritor e também por ele próprio, nesse confessionário espantoso, misto de lirismo – porque nele se encontram algumas das mais belas poesias que escreveu – e de reflexão crítica, que são as páginas do seu Diário. Apenas o lembrarei, pois, modestamente, no centésimo aniversário do seu nascimento, em alguns dos aspectos mais relevantes da sua obra vasta e multifacetada. Dono de uma personalidade complexa, a ela devemos, com certeza, a riqueza de um legado literário único, bem como à agrura de um nascimento sem aconchegos que fez dele um lutador, numa incessante procura de Beleza e Perfeição.

Tendo adoptado, como escritor, a partir do "Prefácio" da sua obra A Terceira Voz o nome de Miguel Torga num processo de alteridade instaurado por Adolfo Rocha, ele escreverá: "-Fica o Outro...-Ficas tu Migue/ Torga." Diz ainda que a voz é a mesma, mas os horizontes são maiores. E não foi, com certeza, por acaso que gostou de associar a esse Outro, a imagem rija, robusta e atormentada de uma "Torga”, a urze que cresce nos montes transmontanos.

Não foi também por acaso que, conhecedor da angulosa expressão do seu rosto, olhos inquietos e perscrutadores de águia da montanha, ele traçará o seu Retrato: /O meu perfil e duro como o perfil do mundo. /Quem adivinha nele a graça da Poesia? /Pedra talhada a pico e sofrimento, /É um muro hostil/Á volta do pomar. /(...)

Por detrás dessa expressão dura, estava o humanista transbordante de fraternidade e de uma afectividade que o levava a abrir os braços para abarcar o mundo: /Tudo amo, admiro e compreendo. /Sou como um sol fecundo/Que adoça e doira/(..)Caminho nesta ingénua confiança/De criança/Que faz milagres a bater as mãos. /

Para a sua personalidade complexa e para a dimensão humana da sua obra, não terá sido alheio o facto de ter nascido numa família de lavradores de parcos recursos, o que o fez viver uma dura infância e depois uma adolescência marcada por um trabalho pesado, na Fazenda de Santa Cruz, em Minas Gerais, para onde o pai o mandara, afim de o roubar a uma vida de cavador de enxada.

A dura infância (esse tempo de inocência e sem sombras, onde todos temos uma lembrança demorada) e os anos de adolescência no Brasil (tempo de aprendizagem e descoberta de uma natureza tropical e pujante, de uma geografia física com horizontes mais amplos, de outras crenças e superstições) de muito sofrimento, inspirariam a Torga o Primeiro e o Segundo Dia da sua belíssima obra A Criação do Mundo.

Dela e depois do Diário, podemos dizer que a vida e a escrita se confundem, pois que Torga fez da introspecção a sua permanente actividade, como que a confirmar o pensamento de Ortega e Gasset para quem uma obra de arte é sempre "um troço da vida de um homem e da sua intimidade". Referindo-se a estas duas obras, Clara Crabbé Rocha afirma que tanto uma como outra representam a mesma "vivência íntima do quotidiano”. Ambas são "carne viva” onde se estampa o "plasma matricial da Pátria”, mas enquanto n'A Criação, o herói é o próprio autor, e a escrita assume uma natureza mais intimista, no Diário, o verdadeiro herói é sobretudo o povo e a pátria, no duplo sentido telúrico e humano, embora seja também um repositório de "vivências íntimas” do inquieto mundo torguiano.

O "intimismo” é, pois, um traço pertinente em toda a obra de Torga, posto ao serviço da demanda difícil da autenticidade que potencializasse a harmonização entre o Homem, o mundo e o artista: O meu verdadeiro rosto está nos livros que escrevi E neles que disse quem sou e como sou e é neles que espero se prolongue e alargue a graça desta comunhão humana...

E é este desejo de "comunhão humana" que nos leva a afirmar que Torga "caminha não para interioridade fechada mas antes através e com o mundo exterior”, no qual ele procura, continuamente, a identidade nacional. E como? No apelo constante às nossas raízes profundas. Qual "andarilho", ele percorre todos os recantos de Portugal: Vi Portugal sozinho, sem guias sem interlocutores a ouvir apenas nas fragas nos matagais nos restolhos nas areias e nas calçadas o eco dos meus próprios passos. Subi todas as serras e calcorreeí todos os vales desta patria.

A busca desta realidade telúrica em toda a sua dimensão e num tempo alargado, justifica-a, escrevendo: O homem e não só o instante em que se contempla num espelho mas também a saudade doutras imagens passadas de que se recorda e a certeza doutras imagens futuras que adivinha.

Visceralmente enraizado no solo pátrio – nessa "nesga de terra debruada de mar” – Torga confessa que o seu "espaço de liberdade é o mapa de Portugal, subentendido na folha de papel onde escrevo" e a sua voz "é (como o rio Douro) uma levada barrenta de esperança que tenta rasgar e reflectir a majestosa e tormentosa orografia da vida.” Nesse solo pátrio, erguia-se um farol: S. Martinho d’Anta, a sua mítica Agarez. Depois de ter conhecido as mais diversas terras e gentes, sempre olhando o mundo de uma fraga, numa completa solidariedade entre a pedra rolada e a penedia de onde saiu, ele regressava:

Regresso

Regresso às fragas de onde me roubaram.
Ah! minha serra, minha dura infância! Como
os rijos carvalhos me acenaram, Mal eu
surgi cansado, na distância!

Depois o céu abriu-se num sorriso,
E eu deitei-me no colo dos penedos
A contar aventuras e segredos
Aos deuses do meu velho paraíso


Era lá, nesse velho paraíso, que se sentia renascer, a "ver as palhas do ninho como penas de aconchego" e onde "as impressões infantis, envolvida numa redoma de saudade”, guardam toda a pureza de um amanhecer sem ocaso.

Ressurreição

Volto a cantar, e voltam-me à memória
As rústicas imagens
Que guardei na retina
De menino:


Lá estavam, na retina de menino, a sua escola primária, o Sr. Botelho, o "negrilho” muito alto, a Sra. do Amparo...
Era esse chão que amava, mais do que tudo. Por isso, nunca concebeu viver fora dele. Podia lá passar sem as águas do Mondego e as fragas do Marão?!

Por um lado, o intimismo que caracteriza a obra de Torga, e que tenho vindo a referir, por outro, o imaginário da infância, numa ligação celular a S. Martinho e a verdade dessa natureza agreste, nimbada de momentos mágicos, inspirar-lhe-iam poemas de um bucolismo tocante, numa "contemplação" e num "deslumbramento" que nos são também comunicados.

Bucólica

A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
A espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;

De ver esta maravilha:
Meu pai a erguer uma videira
Como uma mãe que Faz a trança à filha.



Mas não só os poemas são modelados nessa argila literária arrancada às fragas do Marão. Em 1961, já mergulhado na vida de médico, ele registaria, no seu Diária
(..) Vejo a Sra. Da Azinheira a branquejar (..) oiço o sino a badalar-me, sabe-me a boca a tabafeira, cheira-me a rosmaninho (...).) Tropeço em cada pedra, sebo em cada fonte, vou de anjo em cada procissão (..)


Tanta simplicidade, tanta limpidez de expressão dificilmente nos fariam supor que a escrita de Torga é produto de um intensivo trabalho, apoiado numa permanente reflexão sobre a língua, num incansável esforço, no verdadeiro culto da palavra. Esse "esforço", essa ânsia de perfeição estão bem patentes na sua obra Orfeu Rebelde, quando escreve:
É sempre o mesmo trágico desejo/De dar outra expressão ao que foi dito!/Sempre a mesma vontade de gritar/Embora de antemão a duvidar/Da exactidão e força desse grito. /

A perfeição da palavra, a todo o momento buscada é também demonstrativa de um novo tipo de intimismo: aquele que procura a autenticidade do "eu”:
O tempo acabara por me ensinar que não há espelho mais transparente que uma página de escrita. É nela que fica testemunhada, para todo o sempre, a verdade irreversível do autor: a sua autenticidade se foi sincero e a sua falsidade se mentiu.

Nesta "lembrança" modesta de Miguel Torga (tão rica a sua personalidade e a sua obra!) só uma curta referência para a maneira magistral como ele glosou, em poemas ímpares, esse traço significativo do nosso carácter colectivo: a atracção do "mar” ("a nossa fuga e a nossa ilusão, abismo inquietante") que nos impeliu para a movência, para a errância e que foi responsável pelo papel que assumimos nas descobertas e na sua perpetuação, como acto civilizacional de que falava Pessoa e que teria recebido o primeiro impulso do rei D. Dinis.

O Achado

Traziam nova terra e nova luz
Nos românticos olhos lusitanos
E uma cruz
Que depois carregaram largos anos.

Traziam todo o anseio que os levou
E que nenhuma Índia satisfez
E traziam a fé que lhes sobrou
Da fé sem fim dessa primeira vez.



Personalidade complexa que constantemente se interroga e problematiza Cavo/Lavo/Peneiro/Mas só quero a fortuna/De me encontrar/(..) não admira que o universo torguiano seja feito de angústia, de um travo de amargura que, por vezes, polvilha o tempo presente. Porém, há nele também, numa perspectiva de futuro, o sentido do "poeta semeador", porque lança a semente de um mundo novo: Nenhum fruto maduro prometeu/O que a semente pode prometer. /

Esta crença num "mundo novo" surge frequentemente associada à esperança que apesar de sucessivamente desiludida, deu sempre um ar da sua graça (...). É que a esperança tem sempre tempo, porque cada dia
É sempre um dia novo
De renovo
E poesia



Lucília Abreu
(2ª Secretária da A.N.D.)
Outubro 2007
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